4# ECONOMIA 29.1.14

     4#1 A TAXA DE DESEMPREGO  5,9% OU 7,4%?
     4#2 RODRIGO CONSTANTINO  MENOS ESTADOS E MAIS MERCADO

4#1 A TAXA DE DESEMPREGO  5,9% OU 7,4%?
Uma nova pesquisa do IBGE d a real dimenso do problema no Brasil e expe o despreparo crnico dos trabalhadores.
GIULIANO GUANDALINI

     No futuro provavelmente ser possvel medir com preciso absoluta, em tempo real, o desempenho econmico de um pas. Esse dia no chegou. Apesar de a capacidade de processamento de informaes ter crescido exponencialmente, existem limitaes na capacidade de colet-las. Para mensurar o PIB, os estatsticos fazem estimativas a partir de dados como o consumo de energia eltrica, o valor dos carros produzidos e o total de gros colhidos. Os tcnicos tambm no podem visitar a casa de absolutamente todas as pessoas para medir o desemprego e por isso fazem a pesquisa com base em uma amostra de domiclios. Essas aferies so constantemente aperfeioadas, com o objetivo de acrescentar informaes e deixar a fotografia revelada pelas estatsticas mais semelhante  realidade. Foi o que ocorreu com a taxa de desemprego brasileira. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE) apresentou uma metodologia mais precisa para avaliar o mercado de trabalho  e a real situao  pior do que os nmeros anteriores indicavam. 
     At recentemente, por restries em seu oramento, o IBGE pesquisava apenas a taxa de desemprego nas seis maiores regies metropolitanas. A partir de agora, o Brasil se alinhar a pases mais avanados e ter uma taxa de desemprego verdadeiramente nacional. Sero avaliados mais de 200.000 domiclios, em 3500 cidades. Os primeiros nmeros divulgados trouxeram a confirmao daquilo que alguns economistas j haviam antecipado: o total de desempregados  na verdade maior. Pela nova metodologia, a taxa de pessoas desocupadas em relao ao total da populao economicamente ativa (ou fora de trabalho, como agora a classifica o IBGE) ficou em 7,4% no segundo trimestre de 2013, o ltimo dado disponvel at o momento. A antiga metodologia havia apontado uma taxa menor, de 5,9%. No  correto, estatisticamente, fazer uma comparao direta dos nmeros, porque a rea de abrangncia das pesquisas  completamente diversa. Porm, a diferena de 1,5 ponto porcentual entre os resultados equivale a um contingente de aproximadamente 1,5 milho de pessoas. Em outras palavras, se a taxa de desemprego captada pela nova metodologia fosse to baixa quanto a indicada pela anterior, haveria 1,5 milho de desocupados a menos no pas. 
     O IBGE divulgar os nmeros mais detalhados sobre municpios e regies metropolitanas apenas no fim do ano. Mas, pelas informaes j apresentadas,  possvel estabelecer algumas concluses sobre onde o problema do desemprego  mais grave. O Nordeste  a regio na qual os trabalhadores mais enfrentam dificuldades para encontrar um emprego. L, a taxa de desemprego atinge dez a cada 100 pessoas no mercado de trabalho. No Norte, o ndice tambm  elevado, 8,3%. No Sul, em contrapartida, apenas 4,3% dos trabalhadores esto desocupados. Uma anlise mais simples poderia concluir que faltam oportunidades de trabalho nas regies Norte e Nordeste. A realidade, porm, de acordo com os especialistas,  mais complexa e desafiadora. A dificuldade no est na falta de demanda por trabalhadores, mas na falta de trabalhadores com capacidade para exercer funes mais complexas. No Nordeste, 42% das pessoas ocupadas no concluram o ensino fundamental. No Sudeste, esse percentual fica em 27%  elevadssimo na comparao com pases desenvolvidos, onde o ensino bsico foi universalizado h dcadas, mas inferior ao das regies mais pobres. Entre os desempregados nordestinos, um tero no concluiu o ensino fundamental, enquanto apenas 5% daqueles com ensino superior completo esto sem trabalho. Por esses nmeros, fica evidente por que mais da metade dos beneficiados do Bolsa Famlia so do Nordeste. 
     Para o time dos economistas que fazem pouco-caso da inflao, os nmeros mais altos do desemprego seriam um sinal de que o mercado de trabalho no est aquecido como se imaginava, e por isso o governo deveria continuar despejando estmulos na economia. Mais uma vez, a realidade  mais complexa e desafiadora. "Os nmeros sugerem na verdade a existncia de uma taxa de desemprego estrutural mais elevada no pas", diz o economista Cludio Adilson Gonalez, scio-diretor da MCM Consultores. "Trata-se de uma mo de obra pouco qualificada, incapaz de preencher as vagas oferecidas." Como resultado, o mercado de trabalho permanece aquecido, com os empregados obtendo ganhos reais de salrio, mesmo em um ambiente de crescimento baixo. So nmeros que apontam para um baixo crescimento na produtividade  e, portanto, um baixo potencial de crescimento sustentvel para o pas. 

POPULAO TOTAL 201 milhes
Ocupados 90,6 milhes [Fora de trabalho (antiga populao economicamente ativa)]
Desocupados 7,3 milhes
Fora do mercado de trabalho 103,1 milhes (crianas, idosos, estudantes, entre outros)


METODOLOGIA ANTERIOR
Pesquisa Mensal de emprego (PME)
Taxa de desemprego 5,9% 92 trimestre de 2013)
Abrangncia
* So Paulo
* Rio de Janeiro
* Belo Horizonte
* Salvador
* Recife
* Porto Alegre

NOVA METODOLOGIA
Pesquisa Nacional por Amostragem de Domiclios (Pnad) Contnua
Taxa de desemprego 7,4% (2 trimestre de 2013)
Abrangncia 3500 municpios em todo o pas.

TAXA DE DESOCUPADOS POR REGIO
Norte 8,3%
Nordeste 10%
Centro-Oeste 6%
Sudeste 7,2%
Sul 4,3%


4#2 RODRIGO CONSTANTINO  MENOS ESTADOS E MAIS MERCADO
     O preo das passagens areas no Brasil, impulsionado pela proximidade da Copa, disparou, e o governo ameaa as empresas do setor com uma possvel abertura para a concorrncia externa. Se o governo sabe que a entrada de novos competidores resultaria na queda das tarifas para os consumidores, por que no deixa que as empresas estrangeiras entrem logo de uma vez? O absurdo dessa situao salta aos olhos. Temos aqui um caso em que o prprio governo intervencionista reconhece que, deliberadamente, prejudica os consumidores brasileiros com o objetivo de proteger as empresas domsticas da competio externa. 
     A livre concorrncia  o melhor aliado que os consumidores possuem. Quanto mais empresas tiverem de competir para atender  demanda, melhores tero de ser os servios prestados, e menor ter de ser o preo cobrado. Poder trocar de fornecedor  a arma mais poderosa dos clientes. 
     Oligoplios, por outro lado, tendem a obter privilgios  custa de seus consumidores, e no precisam se preocupar tanto com a qualidade e o custo de seus produtos. No se perca tambm de vista o fato de que oligoplios precisam da mo estatal para se manter. O protecionismo, portanto,  o melhor amigo das grandes empresas prximas do governo, e o maior inimigo dos consumidores e pagadores de impostos. Isso vale para diversos produtos. Recentemente, o vinho importado sofreu aumento de imposto para beneficiar produtores locais. Temos cotas para filmes nacionais. O BNDES destina bilhes de reais subsidiados para grandes grupos. Ser "amigo do rei" no Brasil vale mais que investir em eficincia. 
     A economia brasileira  uma das mais fechadas do mundo. Por trs disso est a mentalidade obtusa segundo a qual tudo o que empresrio quer  explorar o consumidor, que, coitado, s tem o governo para proteg-lo. Se for empresrio estrangeiro, ento, pior ainda: a xenofobia garante uma cota extra de averso. As intenes no so relevantes. Decisivo mesmo  o mecanismo de incentivos em jogo. Depositar todas as esperanas nas aes que o governo pode tomar para proteger o consumidor  prejudicial ao prprio consumidor, mesmo assumindo a premissa, absurda de to simplista, de que os empresrios so egostas e os governantes altrustas. 
     A experincia mostra que a livre concorrncia  capaz de impor uma conduta de eficincia s empresas que, ao fim e ao cabo, beneficiar os consumidores. Caso tente escapar da disciplina imposta pelo mercado, o empresrio ter a falncia como destino. Por outro lado, mesmo o mais abnegado dos polticos, se quiser conservar seu mandato, precisar focar sempre as prximas eleies. Essa limitao encurta seu horizonte e o leva a tomar ou apoiar aes que, a despeito do interesse do consumidor, o ajudem a conseguir a reeleio, seu objetivo primordial. 
     No setor privado, a incompetncia precisa ser punida e a eficincia recompensada. Sem adotar como norma a meritocracia, uma empresa no pode sobreviver no regime de mercado. J no setor pblico, a norma  pr nos outros a culpa pelos prprios erros e depois, na incapacidade de executar suas funes nas condies estabelecidas, pedir aumento de verba. O contraste  evidente. O setor privado precisa de competio para viver, enquanto o setor pblico vive para evitar a competio. 
     Pode-se argumentar que as empresas brasileiras precisam de proteo e subsdios para amenizar um pouco o "custo Brasil".  duro competir internacionalmente tendo sobre os ombros o peso de uma mo de obra pouco qualificada, leis trabalhistas obsoletas, infraestrutura capenga, carga tributria escandinava (para servios africanos), um mercado de capitais subdesenvolvido e uma burocracia asfixiante. A maneira eficiente de combater esses males  atac-los pela raiz. Ou seja, exigir reformas estruturais urgentes que equiparem o custo Brasil ao custo mundo. No adianta contar com a boa vontade em conta-gotas e privilgios do governo. As benesses so apenas para os grandes grupos, enquanto o custo disso  pago pelas pequenas e mdias empresas. Em suma, o Brasil precisa na economia do que talvez seja o nico experimento ainda no tentado por aqui: um choque de capitalismo liberal. Precisa de mais concorrncia e menos intervencionismo. De menos Estado e mais mercado. 


